18.12.2014  /  8:28

A história de amor, ódio e facadas do ex-ministro Roberto Campos

Tempos depois de livrar-se da amante, o ex-ministro e então embaixador Roberto Campos foi parar no pronto-socorro com sinais de facadas na região do tórax e do abdome. Uma das principais suspeitas do ataque era, justamente, Marisa Tupinambá 

Marisa Tupinambv°
A polêmica Marisa Tupinambá, em 1973

 

Por Paulo Sampaio para revista Joyce Pascowitch de dezembro

 

De acordo com uma nota publicada em 1975 na revista Claudia, a funcionária da embaixada do Brasil em Paris Marisa Tupinambá bateu naquele ano “todos os recordes de affaires românticos”. “Em menos de 15 dias, ela circulou com o conde Jean-Jacques de La Rochette, com o filho do falecido rei Faiçal e com o joalheiro Alain Boucheron.” Em Paris, onde o embaixador era Delfim Netto, ela organizava exposições, recitais, “coisas de arte”. Alta, loira e ambiciosa, a especialidade de Marisa era potencializar seus predicados até levar os poderosos a rastejarem a seus pés. Caso fosse contrariada, poderia tornar-se violenta, como mostrou tempos depois a seu amante mais contumaz, o embaixador do Brasil na Inglaterra Roberto Campos (1917-2001), que era casado e tinha três filhos.

A fúria da loira foi deflagrada quando, segundo a própria, Roberto Campos a deixou fora das comissões em negociatas que ela intermediava com empreiteiras nacionais e empresas multinacionais interessadas em se instalar no Brasil: “O Roberto me colocava à testa das operações. Comecei em 1979, com a Odebrecht”, disse ela anos depois, em 1983, em uma longa entrevista ao jornal O Pasquim. “[A parte que cabia a ela] era de acordo com o negócio. Se fosse algo grande, 1%, se fosse pequeno, mais. (…) Mas ele não deixava as pessoas me pagarem. Acho que tinha raiva, aquela história de amor e ódio. Pra mim, dizia que os negócios não tinham sido fechados.”

Um amigo daquele tempo conta que, para mostrar sua indignação, Marisa apareceu de surpresa em uma soirée no Royal Festival Hall e desferiu uma série de bolsadas no embaixador. Com capacidade para 2.900 pessoas, a casa contava naquela noite com a  honrosa presença da rainha

Elizabeth. “Ela veio descendo enfurecida pelo corredor central até o lugar onde o Roberto estava acomodado com um sobrinho e mandou bolsadas.” Ao jornal O Pasquim, Marisa afirmou: “Sujeito [Roberto Campos] me esculhambou, diz para todo mundo que eu sou louca, chantagista, e eu vou ficar quieta? Absolutamente! Eu tenho um gênio forte!”. Na ocasião das bolsadas, por volta de meados de 1980, o embaixador achou mais prudente encerrar o relacionamento com a amante e a embarcou de volta para o Brasil.

Menos de um ano depois, em abril de 1981, em uma visita a São Paulo, Roberto Campos foi vítima de um misterioso – e bem mais apavorante – ataque. Dessa vez, recebeu várias facadas na região do tórax, abdome e mão esquerda. Um primo do diplomata, Márcio Campos, tentou abafar o caso, divulgando que ele havia sido assaltado quando deixava o prédio onde tinha um apartamento, na avenida São Luis, região central da cidade. A Folha de S.Paulo noticiou que o embaixador fora “gravemente ferido por uma dupla de delinquentes” que tentou levar um cordão de ouro. Porém, o jornal carioca O Dia, de propriedade do governador Chagas Freitas, desafeto de Campos, publicou uma versão segundo a qual o crime teria sido praticado por uma mulher chamada Marisa Tupinambá.

 

CALOROSA DESPEDIDA 

Economista prestigiado ainda antes de se tornar embaixador, Roberto Campos havia sido ministro do Planejamento e estava no Brasil em missão diplomática, para auxiliar o governo na negociação da dívida externa com o Fundo Monetário Internacional (FMI). Voltaria para Londres via Nova York, onde tinha uma reunião marcada com técnicos do fundo. Aos amigos, Campos contou que um dia antes do embarque Marisa solicitou, por intermédio de um emissário, “um encontro de despedida”. Tudo foi arranjado em um flat dúplex na Vila Nova Conceição, bairro da zona sul de São Paulo que fica no caminho do aeroporto de Congonhas (na ocasião, Cumbica ainda não existia). A ideia era que o embaixador pudesse ir do encontro direto para Congonhas. No entanto, foi direto para o pronto-socorro.

Como já era de se supor, a conversa entre os dois evoluiu rapidamente para o sexo. Aos 63 anos (contra os cerca de 35 de Marisa), Campos precisou de um tempo para se recuperar depois – e acabou cochilando. Segundo contou mais  adiante, foi despertado pelo ímpeto assassino da loira, que àquela altura já havia aplicado nele golpes de faca suficientemente incisivos para perfurar seus intestinos, o peito e a clavícula. Ao tentar se defender com as mãos, ele quase teve o polegar decepado. Quando se deu por satisfeita, Marisa limpou a faca, colocou-a na bolsa e deixou o apartamento, enquanto o embaixador agonizava.

Na entrevista a O Pasquim, ela afirmou que o encontro foi sugerido por um amigo de Campos chamado Carlos Eduardo Paes Barreto, dono do flat, e que a briga começou “quando Roberto disse que não queria continuar o romance”. A coisa esquentou no momento em que Marisa cobrou do embaixador uma indenização “pelos 12 anos de relação”. “Com a maior estupidez, ele disse que não tinha obrigação nenhuma de me dar o prometido apartamento em Londres e sequer pagar as mediações de negócios que eu fiz (…). Tentei chamá-lo à razão, dizendo que ele deveria ao menos me arranjar um emprego (…).”

A resposta de Campos, segundo ela, veio áspera: “Pega o ‘Estadão’ de domingo e se vira!”. Marisa ameaçou entrar com uma ação contra ele: “O Roberto estava na cozinha pegando gelo para o uísque, pegou uma faca e apontou para mim. ‘Olha, eu estou perdendo a paciência. Cuidado comigo, hein’”.  Seguiram-se  provocações de parte a parte até que, de acordo com ela, o diplomata avançou com a faca. “Eu estava de salto muito alto, caí, ele em cima de mim, lutando, nós rolamos pelo chão. (…) Pensei: ‘Deus, será que esse homem vai me cortar a garganta?’ (…) Consegui tirar a faca da mão dele, joguei longe e, quando me levantei, estava toda ensanguentada”.

Roberto Campos foi esfaqueado
Parentes de Roberto Campos e médicos reunidos no P.S Iguatemi na noite do crime, em 1981

 

TROCA DE AMBULÂNCIAS

Roberto Campos contou que, após o ataque, num esforço sobre-humano, se arrastou até a escada caracol do dúplex, desceu os degraus agarrando-se nas grades e rastejou até o telefone. Ligou para o pianista João Carlos Martins, amigo muito próximo, mas não conseguiu falar porque o músico estava se apresentando em um recital na Sala Cecília Meireles, no Rio. Tentou então Márcio Campos.  Graças às boas conexões do primo, o atendimento de emergência ao embaixador seria feito na mais absoluta discrição pelo pronto-socorro de um hospital na Vila Mariana, zona sul de São Paulo. “A equipe lá estava preparada para resguardar sua identidade”, conta um médico amigo de Campos. Eis que, no meio do caminho para o hospital, a ambulância enguiçou e o embaixador acabou sendo transferido para outra, que atendia o Iguatemi, na avenida Nove de Julho, no Jardim Europa, onde ninguém havia sido avisado da necessidade de guardar sigilo a respeito da identidade do paciente célebre.

Muito influente, Roberto Campos teve participação em algumas das mais importantes decisões econômicas tomadas no país desde o segundo governo de Getúlio Vargas, quando integrou o grupo que criou o Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico (o atual BNDES). Depois de apoiar o golpe de 1964, assumiu a pasta do Planejamento no mandato de  Castello Branco e tornou-se o “homem forte” daquele governo. Tomou parte na criação do Banco Nacional da Habitação (BNH), do Banco Central e do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS). Duas vezes embaixador, ele representou o

país primeiro em Washington, no governo de João Goulart, depois em Londres, nos de Ernesto Geisel e João Figueiredo. Acusado de defender interesses americanos e de ser “entreguista”, Roberto Campos ganhou de seus adversários o apelido de Bob Fields. Por sua vez, era conhecido pela inteligência mordaz e a inclemência quando se tratava de detonar os inúmeros desafetos.

 

CAPA DOS JORNAIS

Ironicamente, após tantos anos de articulação política, comercial e diplomática, Campos enfrentava na vida pessoal a sinuca mais delicada de sua história. Que declaração um embaixador lotado em Londres poderia dar depois de passar por um episódio como aquele? Apesar das precauções de Márcio Campos, logo o Hospital Iguatemi foi invadido por repórteres e o escândalo acabou na capa dos principais jornais do país. “Roberto Campos foi esfaqueado”, chamou a Folha de S.Paulo. O presidente João Figueiredo ligou às 8h30, mas a mesa telefônica do hospital estava congestionada. Na segunda tentativa, precisou dizer à telefonista: “Minha filha, é o presidente da República”. O ex-presidente Jânio Quadros deixou a clínica aos prantos. Telegramas de autoridades dos quatro cantos do mundo chegavam a todo instante.

Dois dias depois, a versão do assalto já havia sido descartada. O contraditório relato de Márcio Campos não combinava com as declarações dos médicos que atenderam o diplomata. Se a tentativa de assalto ocorrera às 20h30, como ele sustentava, e o registro de entrada no pronto-socorro foi às 22h (segundo uma enfermeira) e 22h30 (segundo o médico-chefe da equipe de plantão, João Paulo Rossi), significa que ele levou no mínimo 1h30 para ir da avenida São Luis até a Nove de Julho – em condições normais, faz-se o percurso em menos de 30 minutos. Ele  argumentou que havia conduzido sua Caravan vagarosamente, para não comprometer ainda mais os órgãos atingidos da vítima. A única testemunha da versão de Márcio Campos era ele mesmo. O porteiro Antônio Francisco da Silva, que trabalhava na hora em que Roberto Campos saiu do prédio, disse que o embaixador deixou o local em segurança, em um Passat preto, não em uma Caravan.

 

EXTREMO BAIXO NÍVEL

Foi então que alguns funcionários do hospital comentaram com um grupo de repórteres que Roberto Campos não havia chegado ali em um carro de passeio, mas em uma ambulância. Quando os jornalistas tentaram apurar na recepção, um médico fez sinal à atendente para que não entrasse em detalhes. Por sua vez, Márcio Campos não reconheceu nenhum suspeito apresentado pela polícia. E disse que não sabia quem era Marisa Tupinambá, mesmo depois da versão publicada pelo jornal O Dia. Porém, de acordo com a edição da revista Veja de 6 de maio, Marisa, que a essa altura estava refugiada na casa da mãe, só concordava em atender o telefone ao ouvir: “É o Márcio Campos”. Naquele momento, ela ainda não queria saber de entrevistas. Irritada com a menção de seu nome no “O Estado de S. Paulo” do dia 8 de maio, ameaçou processar o jornal: “Tudo isso é de extremo baixo nível”, disse. “Estou muito preocupada com a saúde do Roberto e não vejo razões para se duvidar da versão apresentada pelo Márcio.”

Enquanto isso, de acordo com Veja, o delegado Rubens Liberatori, que comandou as investigações, anunciava que havia recolhido 300 suspeitos. Apesar da promessa do governador Paulo Maluf de que encontraria o autor em 48 horas, nunca houve sequer inquérito para apurar o crime. Em plena ditadura militar, o governo “arquivou” o caso. E tudo teria sido enterrado no mais absoluto silêncio se não fosse a entrevista-bomba de Marisa, concedida quase dois anos depois. A “O Pasquim”, ela anunciou que escrevia um livro, Minha Vida com Roberto Campos, o qual, segundo disse a J.P o pianista João Carlos Martins, nunca foi lançado porque um grupo de amigos do embaixador se cotizou para pagar sua não publicação. Vinte anos depois, quando o diplomata morreu, pouca gente lembrava do episódio e, menos ainda, dos personagens envolvidos.