20.03.2016  /  8:44

A figurinista Claudia Kopke conta suas histórias e mostra seu estilo na J.P

||Créditos: Anna Fischer/Revista J.P
Claudia usa capulana trazida de Moçambique com blusa Virzi + De Luca + Leo Neves e sandália Bruna Botti. Lenço na cabeça Louis Vuitton, pulseiras brancas compradas em feira de rua, em Ipanema, pulseiras variadas do brechó La Botica da Jane; colar menor comprado na Bahia e o mais grosso, na Amazônia; óculos Dior||Créditos: Anna Fischer/Revista J.P

Se trabalhar com o que se gosta é luxo, Claudia Kopke é pura finesse. Aqui, ela divide com J.P suas confissões de estilo e a trajetória de menina curiosa a figurinista premiada

Por Julia Reina para a Revista J.P de março
Fotos: Anna Fischer

Claudia Kopke, 56 anos, não sabe dizer ao certo como sua paixão pelas roupas começou, mas sabe que foi cedo e naturalmente. “Com 12 anos já ia ao centro comprar tecidos e mandava uma costureira fazer roupas. Quando percebia, minhas irmãs e primas estavam vestidas iguais a mim, pois todo mundo adorava e copiava as peças que eu criava”, conta a fluminense, que na época usava revistas de molde como referência. O caminho traçado até se tornar uma figurinista de renome – dos bastidores da TV, de cinema e de musicais e vencedora de um Prêmio Shell de melhor figurino em 2015, por “Chacrinha, O Musical” – não foi dos mais lineares. No entanto, as histórias de Claudia mostram que ela realmente nasceu para esse trabalho. A seguir, algumas de suas peripécias pelos camarins da vida.

J.P: Como foi o início da sua relação com a moda?
Claudia Kopke: Eu e Emilia Duncan éramos amigas desde os 10 anos, e a gente adorava festas. Naquela época não havia muitas lojas legais no Rio, então eu sempre mandava fazer as roupas pra essas festinhas com uma costureira. Um episódio marcante foi quando fiz uma viagem, aos 15 anos, para Londres e conheci a Biba [icônica loja de departamentos dos anos 1970, na Kensington High Street] pela primeira vez. Lembro-me de descer do táxi e de olhar para aquele lugar enorme. Aquilo me marcou muito. Não tinha nada parecido no Rio. Fiquei horas vendo batons, roupas, lingerie.

J.P: Você fez faculdade de letras [na Universidade Federal Fluminense, em Niterói]. Como esse gosto por moda acabou se tornando trabalho?
Claudia Kopke: Eu trazia roupas de Nova York para vender e também trazia tecidos de minhas viagens. Junto com a Emilia, confeccionava bolsas. Fazia o maior sucesso. Até que por indicação de amigos, Jair de Souza e Nizan Guanaes, que trabalhavam na Artplan, agência que produziu o Rock in Rio I (em 1985), nos contrataram pra fazer 5 mil uniformes para o staff do evento. Criamos e fabricamos tudo, na cara e na coragem, sem nunca ter feito aquilo. Estampávamos roupas em Caxias, a confecção ficava em Niterói e levávamos tudo no nosso carro, uma confusão.

J.P: E depois disso?
Claudia Kopke: Daí pra frente não parei mais, passei a vestir algumas bandas de rock e, como era o nascimento do rock nacional, fazia de tudo: capa de disco, videoclipe, shows. Tive duas grifes, uma delas com a Emilia, a 2K2. A Gloria Kalil deixou a gente ter um corner na loja de sua marca, Fiorucci, em Ipanema, e fazíamos coisas diferentes, tipo vitrines vivas com atores e atrizes. Era um barato. Depois me casei com Marcelo Tas [de quem se separou em 1996] e fomos passar uma temporada em Nova York, foi quando fiz alguns cursos no FIT e comecei a buscar esse caminho mais profissional. Eu já trabalhava com a Regina Casé havia um tempo, fazendo “Brasil Legal” (programa exibido pela Rede Globo de 1995 a 1997), e ela me chamou para fazer meu primeiro figurino no cinema, em “Eu Tu Eles” (2000), e eu me encantei com esse universo.

J.P: O que te atrai mais nos trabalhos de figurino?
Claudia Kopke: Eu sempre gostei de trabalhar muito com a realidade, até mesmo no cinema. É uma chance incrível de você se aprofundar em algum assunto, coisa que não faria normalmente. Adoro a parte da pesquisa, de entrar na história, na direção de arte. E o meu trabalho é sempre um grande aprendizado. Entendi, por exemplo, que no cinema tudo toma uma dimensão mais gigantesca, ainda mais com a resolução das imagens hoje. No teatro, é menor, ninguém vê detalhes, e eu, que tinha obsessão com detalhes, aprendi que cada segmento tem uma proporção diferente.

J.P: E mesmo em histórias mais realistas existe espaço para criar?
Claudia Kopke: Sim! Por mais que tenha o fio condutor e a pesquisa de referências, você cria, inventa. O figurino tem de ser algo verossímil, mas não precisa ser real. Às vezes, para uma história mais realista, como “Tropa de Elite” (filme de 2007, que Claudia assina o figurino), por exemplo, mais vale lançar mão da verossimilhança do que da realidade em si. Quando fui criar o figurino das chacretes [assistentes de palco de Chacrinha] de “Chacrinha, O Musical” (2014), não coloquei botas, mesmo sabendo que o público lembrava mais delas com botas. E tudo bem, porque tinha espaço pra isso. O importante é o figurino ser harmônico, tudo tem de conversar.

J.P: Então harmonia é o mais importante em um figurino?
Claudia Kopke: É imprescindível. Entender o que o diretor de arte está fazendo é meio caminho andado para o figurino, que, por sua vez, tem de interagir com a fotografia, com o cenário. Seja para promover o prazer visual ou chocar, se essa for a intenção. O figurino nunca tem de ser maior do que a cena e o personagem. Em “Casa de Areia” (2005), por ter aquela paisagem tão árida, o figurino que criei acabou tendo destaque, mas não faz sentido colocar muitos elementos num personagem por nada, só para chamar atenção.

J.P: Isso vale também para o estilo pessoal?
Claudia Kopke: Acredito que há pessoas exageradíssimas que mandam muito bem! (risos) O ideal é não seguir à risca os padrões da moda, absorver as tendências com o que cai bem, saber o que favorece o seu corpo.

J.P: E com você é assim?
Claudia Kopke: Acho mais fácil construir um estilo com os atores do que comigo mesma. Desmontar o jeito deles, do personagem anterior, e recriar tudo para o novo trabalho é algo que adoro fazer, mas quando penso em mim, nunca dá certo… Eu achava que com 40 anos ia virar aquelas chinesas que só se vestem de azul-marinho, mas não rolou.

J.P: Como você define o seu estilo pessoal?
Claudia Kopke: Sou mais o “à la garçonne”: roubo umas coisas do meu marido e adoro mulheres chics que usam looks masculinos como a Tilda Swinton e a Cate Blanchett. No geral, até por trabalhar com tantas referências, sou mais contida. Tem dias que prefiro roupa colorida, mas normalmente opto pelas mais sérias. Só não sou careta, nem tão clássica. Não sou muito consumista, na verdade, compro pouca coisa e geralmente já sei o que vai dar certo em mim. Tirando um vestido preto da Comme des Garçons que tenho encostado há anos e nunca usei, aproveito tudo o que tenho, e adoro um brechó.

J.P: De onde vem suas referências?
Claudia Kopke: Amo o Pinterest! Faço mil pastas, peço para os meus assistentes fazerem também, aí entro no perfil de cada um, já olho e aprovo ali mesmo. É uma ótima ferramenta de trabalho. O Instagram também é bom para você ter uma pequena amostra do que está acontecendo e, se for o caso, ir mais fundo depois. Hoje uso muito a internet, que tem cada vez mais fotos antigas e referências boas, mas ainda compro livros bacanas tipo os últimos do Jean-Baptiste Debret. Não deixei de usar os livros e nem pretendo.