28.07.2014  /  8:38

Revista J.P: 15 anos depois, ninguém esquece o franco-atirador do cinema

Quase 15 anos depois, o Brasil não esquece o dia em que o estudante de medicina Mateus da Costa Meira entrou em um cinema com uma submetralhadora e disparou na direção da plateia, matando três dos 28 espectadores. Alguns sobreviventes acharam que se tratava de uma brincadeira de mau gosto…

Por Paulo Sampaio para Revista Joyce Pascowitch 

Tornado um cult entre o público moderninho, o filme “Clube da Luta”, com Brad Pitt e Edward Norton, conta a história de um grupo de homens estressados que fundam uma confraria para descarregar a tensão na base dos socos e pontapés. Por mais violento que pareça, o longa virou brincadeira de criança diante do horror vivenciado por quem o assistiu na sessão das 21h do dia 3 de novembro de 1999, na sala 5 do cinema do Morumbi Shopping, em São Paulo. Já havia se passado uma hora e dez de filme quando um dos espectadores caminhou até a altura da primeira fileira, levantou uma submetralhadora calibre 9 mm e passou a atirar na direção da tela e depois na da plateia. Das 28 pessoas que estavam na sala, três morreram e cinco ficaram feridas. Ao final, atrapalhado com a arma já descarregada, o “atirador do shopping”, como o estudante universitário Mateus da Costa Meira ficou conhecido, foi imobilizado por alguns dos sobreviventes e preso em flagrante. Repórteres e opinião pública criavam teorias mirabolantes para tentar explicar o que teria levado um universitário de 24 anos, aluno do sexto ano da faculdade de medicina da Santa Casa de Misericórdia, a cometer tal atrocidade. “Não gostaria de dar nenhum depoimento agora”, ele disse na delegacia, em voz baixa, ao ser preso. Quando perguntaram se ele estava arrependido, afirmou: “Tô”. Faria de novo? “Não.” Aparentemente, queria apenas se livrar do assédio da imprensa. Nos dias que se seguiram, acabou confessando que planejava algo do gênero havia sete anos. “Eu sempre tive em minha mente que deveria matar alguém”, revelou ao jornal O Estado de S. Paulo. Em poucas horas, o crime monopolizou o noticiário. Não só pela alta voltagem do evento, mas também pelo ineditismo do chamado “assassinato em massa” no Brasil. Casos assim eram associados a nerds americanos ou adolescentes desajustados.

 

O dia D

Até onde Mateus conseguiu controlar os acontecimentos, tudo saiu como o planejado. Na véspera, ele se hospedou em um três-estrelas chamado Príncipe Hotel, na avenida São João, no centro de São Paulo, localizado a 14 km do MorumbiShopping. Escolheu o hotel estrategicamente, já que pretendia ficar bem longe do local do crime durante as investigações. Apesar de já possuir uma pistola 380, o estudante achou que precisaria de algo mais potente. Encomendou a seu mecânico, Marcos Paulo Almeida Santos, uma submetralhadora americana Cobray M-11/9. Em troca, deu a ele R$ 5 mil e a pistola. Instalado no quarto 915, pediu um filé grelhado, um refrigerante, alguns chocolates, saiu para dar uma volta na redondeza e dormiu. Passou o dia seguinte em um estado de excitação fora do normal. Por volta das 20h30, colocou a arma em sua mochila de náilon e rumou de táxi para o shopping. Usava jeans e camiseta polo branca. Chegou por volta das 21h15, foi direto ao piso Lazer, cruzou a praça de alimentação e entrou no banheiro. Ali, interpelou Hernandes Correia, a primeira pessoa que viu, e disse: “Você toma anabolizante, isso é droga e vai te matar. Sou médico e sei o que é isso”. Os dois discutiram. Correia foi até um segurança do shopping e comunicou que havia uma pessoa alterada no banheiro. Mas, àquela altura, Mateus já estava entrando no cinema. Sentou-se em uma fileira bem à frente e, depois de 15 minutos, levantou-se para ir ao banheiro. Lá, mirou a submetralhadora para sua imagem no espelho e disparou um tiro. A arma estava no modo intermitente, por isso as balas não saíam em rajadas. De volta à sala de projeção, ele foi até bem perto da tela e passou cerca de três minutos descarregando até o fim o pente de 39 tiros. “Nessa hora, pensei que fosse uma pegadinha”, contou à revista Veja o estudante Miguel Beltran Neto, uma das testemunhas oculares. Mateus explicou depois: “Escolhi o filme do Brad Pitt porque é legal, tem cenas de violência e conta a história de um esquizofrênico”.

Problemas psiquiátricos 

Do começo do inquérito até depois da condenação de Mateus a 120 anos e seis meses de prisão, em 2004, num julgamento que levou quatro dias, a defesa procurou provar que o réu era mentalmente desequilibrado. Caso conseguisse, Mateus poderia ser considerado inimputável, ou seja, alguém sem discernimento para saber se o que estava fazendo era certo ou errado. Assim, não iria para uma prisão comum, e sim para um hospital psiquiátrico do sistema penitenciário (supostamente um “privilégio”). O psiquiatra Arthur Guerra, chamado pela família do réu, afirmou que Mateus sofre do chamado transtorno de personalidade esquizoide (TPE), o que explicaria sua frieza emocional, tendência a solidão e dificuldade de adaptação social. “A pessoa já nasce com essas alterações e não muda. Vai morrer com isso”, garantiu Guerra. A promotoria julgou Mateus como assassino frio e calculista. Um observador precipitado poderia deduzir que um jovem capaz de se manter em um dos cursos de medicina mais prestigiosos do Brasil e ainda planejar minuciosamente um assassinato em massa teria clareza de raciocínio suficiente para saber o que estava fazendo. Porém, ao analisar o histórico de Mateus, o mesmo observador não gastaria mais de meia hora para chegar à conclusão de que alguma coisa estranha se passava na mente dele. Filho de uma família de classe média alta de Salvador, o atirador do shopping teve uma infância abastada, foi um aluno acima da média no conceituado Instituto Social da Bahia (Isba), na capital, e até o começo da adolescência não apresentou nenhum sintoma de desajuste social ou emocional. “Aos 13 anos, começaram o choro e a depressão”, disse à revista Época a enfermeira Alina da Costa Meira, mãe de Mateus. Um dia, ele revelou a ela o desejo de se matar. “Não tenho um amiguinho”, queixou-se. Aos 15, quando esteve nos Estados Unidos para fazer um intercâmbio, sua “mãe” americana não o suportou por causa da agressividade e foi preciso trazê-lo de volta. Em casa, passou a agredir fisicamente os pais. A única irmã, Ana Emília, era ignorada. Certa vez, quebrou a costela do pai, o oftalmologista Deolino Vanderlei Meira, e aplicou um murro no olho da mãe e um chute em seu joelho. O motivo seria uma roupa amassada. “Ele sempre teve mania de limpeza e organização”, contou Alina.

 

Aluno brilhante

A certa altura, os médicos consultados pelos pais acharam que seria interessante separá-lo da família, para que cultivasse uma vida social independente. Então, Mateus se mudou para São Paulo. No primeiro ano da faculdade, de acordo com os professores, era um aluno brilhante. No segundo, seu rendimento caiu um pouco; no terceiro, mais ainda. Segundo os colegas de turma, Mateus era muito introspectivo e reagia mal a brincadeiras. Um de seus professores, Ivan Pistelli, afirmou em uma entrevista à Rede Record que o estudante “era uma pessoa extremamente apática, diferente, e isso já nos era claro desde o começo do estágio”. No fim do primeiro ano, quando foi passar férias em Salvador, Mateus tentou o suicídio com um bisturi. De volta a São Paulo, agrediu um colega no pensionato onde morava – seus pais o transferiram para um apartamento alugado. Ali, chegou a quebrar uma porta de vidro com a cabeça e ameaçou o porteiro quando ele não quis dar as chaves da caixa de luz, onde, argumentava, estavam as vozes que o perseguiam. As alucinações começaram por volta do segundo ano da faculdade. Alina lembrou: “Quando cheguei de Salvador, ele disse: ‘Minha mãe, outro dia estive em uma loja [de brinquedos, que vendia armas a laser] onde várias pessoas atiravam contra mim; se eu não corro, o tiro me pegava’”. A imprensa associou o massacre do cinema ao fato de o assassino ser aficionado por jogos como o videogame Doom, famoso pela crueldade com que o jogador elimina seus inimigos virtuais. Alina procurou a direção da Santa Casa e informou o estado do filho. Eles a encaminharam ao serviço de assistência ao estudante. Disseram a ela que não havia condições de atendê-lo porque ele estava em “surto de perseguição”. Ela e o marido o levaram a psiquiatras, ele chegou a ser medicado, mas reclamava que os remédios o deixavam “lento e sem poder de raciocínio”. As agressões físicas aos pais continuavam. A ponto de Alina ter de marcar um voo para Salvador às escondidas. “Peguei minha bagagem e saí devagarzinho. A 1 metro de distância do prédio, comecei a correr.” Nesse ponto, a faculdade encaminhou Mateus para um médico de fora. O psiquiatra José Cássio do Nascimento Pitta estava de viagem marcada, então deixou o paciente aos cuidados de uma colega. Ela o internou quase que em seguida, depois que o rapaz afundou a lataria da geladeira com um soco, de acordo com o relato de Alina no programa Fantástico, da TV Globo. A internação durou nove dias, até 20 de outubro, cerca de duas semanas antes da tragédia. De volta da viagem, Pitta assumiu o caso e passou a medicar o cliente. O advogado de defesa, Sérgio Reis, de Salvador, garantiu que, “sob o efeito dos remédios, ele é controlado”.

 

As drogas 

Cinco dias antes de entrar armado no cinema, Mateus havia deixado de tomar a medicação por conta própria, o que pode ter precipitado os acontecimentos. E havia também a droga ilícita. A polícia encontrou 37 papelotes de cocaína no apartamento do estudante, que não pagava o condomínio havia dois meses. O traficante que fornecia a droga para Mateus, ainda segundo as investigações, era o mesmo mecânico que vendeu para ele a arma do crime. O efeito da cocaína, mais o da suspensão dos remédios, teria potencializado a agressividade do jovem. Em entrevista à Folha de S.Paulo, Pitta afirmou que Mateus não é psicótico nem esquizofrênico, mas enfrenta problemas quando tenta controlar a impulsividade. Segundo um laudo concluído em janeiro de 2000 por quatro médicos, a pedido do juiz José Ruy Borges Pereira, Mateus “tinha plena capacidade de entendimento e autodeterminação para os fatos”. A defesa pediu a anulação do laudo, depois de argumentar que psiquiatras de São Paulo e da Bahia encontraram mais de 60 falhas no documento. Enquanto aguardava o julgamento, Mateus ficou preso no Centro de Observação Criminológica (COC) do Complexo do Carandiru, em São Paulo, até 2002. Com a desativação do presídio, foi transferido para a penitenciária 2 do Tremembé, no interior do estado. Três anos depois do julgamento, a pena foi reduzida a 48 anos e nove meses de prisão porque a defesa recorreu com o argumento de que o réu teria praticado diversos crimes em uma só ação, e não várias, como entendera o juiz. Quanto mais ações, maior o número de anos de pena. O Ministério Público (MP) contra-argumentou a defesa, dizendo que o criminoso não acionou a metralhadora de forma continuada, mas pausadamente – o que configuraria várias ações. Para o Tribunal da Justiça de São Paulo, os “poucos segundos” entre os disparos não eram tempo suficiente para que se estabelecesse um novo atentado. A relatora Laurita Vaz, do TJSP, concluiu que a decisão do tribunal estava devidamente fundamentada. Revoltados, parentes das vítimas e sobreviventes entraram na Justiça contra o MorumbiShopping. Marcelo Huck, advogado da publicitária Hermé Luiza Jatobá, morta aos 46 anos com um tiro na cabeça, alegou que “não havia uma ambulância para atendê-la em todo aquele complexo. Depois, ainda foi transportada em um camburão até o hospital”. O shopping ganhou as ações que alegavam falta de segurança, com o argumento de que não seria possível prever que alguém entraria no cinema com uma arma na mochila. As ações que obtiveram algum sucesso se baseavam no direito do consumidor. A defesa das vítimas alegava que, se o cinema de um shopping cobra mais pelo ingresso do que um na rua, isso pressupõe uma segurança reforçada.

 

Mau comportamento 

Depois de oito anos de prisão, Mateus poderia ter recorrido ao regime semiaberto, mas cometeu duas infrações graves. Na primeira, ainda em São Paulo, pagou R$ 1.800 a outro preso para que liquidasse uma testemunha de acusação em sua condenação. Na Penitenciária Lemos Brito, em Salvador, para onde foi transferido, em 2009, a pedido dos pais, tentou matar a tesouradas um companheiro de cela, o espanhol Francisco Vidal Lopes, condenado por tráfico de drogas. Motivo: Lopes não teria abaixado o volume da TV. Em 2011, a Justiça da Bahia, por meio de júri popular, declarou o réu inimputável por sofrer de transtorno de personalidade esquizoide (TEP), atestado por laudo médico. O detento então foi transferido para o Hospital de Custódia e Tratamento (HCT), onde está até hoje. O advogado de Mateus na Bahia, Vivaldo Amaral, tenta entender como a Justiça pode ter alegado problemas mentais para absolver seu cliente de um crime, mas não de outro. Em entrevista a J.P, Amaral explica: “O Mateus continua preso por causa do episódio do cinema. A Justiça quer fazer crer que ele era louco quando tentou matar o colega de cela, mas não quando disparou com a submetralhadora”. Ao que parece, a extraordinária repercussão do crime do cinema contou muito para arrastar o processo – e manter Mateus no hospital penal. Para libertá-lo de vez, a Justiça teria de enfrentar uma forte reação da opinião pública. O promotor David Gallo, do MP da Bahia, que conhece o rapaz de perto, afirma que “ele é um demente, psicopata, com tendências extremamente violentas. Ele é submetido a avaliações semestrais, que sempre acusam os mesmos problemas”. O mais provável, portanto, é que Mateus fique no HCT ad infinitum.

 

Dor eterna

Aos policiais do 96º DP, que, no dia da tragédia, perguntaram ao detido se ele tinha namorada ou amigos – para avisá-los da ocorrência –, Mateus respondeu: “Eu não gosto de ninguém. Já disse, eu não gosto de ninguém”. Apesar de manter com os pais uma relação distante, o “atirador do shopping” ligou para a mãe cerca de 12 horas depois de ser preso e disse quase chorando: “Não sei explicar, minha mãe, o que aconteceu comigo”. Moradores de um apartamento de quatro quartos no elegante edifício no Chame-Chame, bairro nobre de Salvador, os pais de Mateus passaram muito tempo impossibilitados de deixar o prédio sem ser abordados pela imprensa. Em uma das vezes em que falou com os jornalistas, Alina deu a entender que, talvez, fosse melhor estar na posição dos pais que tiveram filhos assassinados por Mateus.