Walter Clark
Símbolo de poder dos anos 70, reconhecido pelo jornal The New York Times como um dos maiores salários executivos do mundo, Walter Clark marcou época como o maior homem da televisão brasileira e também por seu estilo bon vivant: brindava a vida, amante da noite e das mulheres. Viveu as duas faces da moeda: ganhou e gastou, muito, porém aproveitou, como poucos.
Nascido em São Paulo, filho de família classe média, descendente de Amador Bueno, mudou-se, aos 5 anos, para o Rio de Janeiro. Cedo também começou a trabalhar: aos 16 anos já era redator da Rádio Tamoyo. Sempre escreveu bem, inclusive poesias para suas namoradas, esposas e amantes.
Nos meados dos anos 50, ingressou na TV Rio, como contato comercial. Dinâmico, gostava de estar em diversas áreas, conversar com todos e saber de tudo – ganhou o apelido de Ventinho. Com o passar dos anos, tornou-se diretor comercial da TV Rio.
Em 1965, uma jovem emissora o contrata – com carta branca – para ser seu diretor-geral: era a Rede Globo de Televisão, que passava por uma fase muito difícil. “Recebi a estação em quarto lugar no Rio, como uma coisa deletéria, uma imensa pocilga”, disse ele em uma entrevista para a revista Status. Mas, profetizou para seu contratante, Roberto Marinho: “Vou construir uma estrutura que vai resistir aos tempos, a mim e ao senhor”. Depois de três anos na emissora, assinou um contrato que o levou ao topo: 1% do faturamento e 2% do lucro das emissoras Globo. Era apaixonado, empenhado e louco pelo que fazia.
Levou para a jovem emissora a noção de continuidade – uma atração puxa a outra – e criou o esquema novela das 7, Jornal Nacional e novela das 8. Definia-se como um “fazedor de estruturas e equipes”. E isso fazia como ninguém. Depois de muita insistência, conseguiu levar para seu time de futuros campeões José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, Boni, na opinião dele o maior podutor de televisão.
No início era o próprio Clark quem contratava as estrelas: foi ele que convenceu Yoná Magalhães e Leila Diniz a ingressarem no casting da emissora. Contratou Glória Magadan, autora de novelas. Começava aí o sucesso das telenovelas da Globo.
Lá seu poder e reconhecimento só crescia: sua sala era no mesmo andar da de Roberto Marinho. De personalidade forte, nunca foi de bajular o chefe, mas juntos enfrentaram ditadura militar, três incêndios e, o melhor, a modernização e o crescimento da emissora. A Rede Globo tornou-se campeã de audiência. Novelas e programas começaram a ser exportados para diversos países do mundo. “Sempre achei que, na televisão, o melhor é o melhor, isto é, que só programas de alto nível trazem prestígio e audiência qualificada”, dizia ele da emissora já conhecida como Vênus Platinada. Aliás, diz a lenda que a origem do nome seria uma mesa de aço escovado da sala de Walter Clark. Ele sempre gostou de decoração, um de seus hobbies.
Não fazia o estilo low profile, aparecia, principalmente, em capas de revistas, como a Veja. Vivia muito bem: tinha um apartamento dúplex na Lagoa, com living repleto de telas de Portinari, Segall, Di Cavalcanti e Mabe. Tinha ainda uma charmosa casa de verão em Angra dos Reis e outra de campo em Itaipava. Viagens incontáveis. Iates, três. Na garagem, uma Ferrari. Massagem à beira da piscina. Bronzeado, sempre.
Na vida, as mais belas mulheres – era considerado um homem romântico. Casamentos? Foram cinco. O segundo, com uma das mulheres mais bonitas do Brasil, a atriz Ilka Soares, elegante, de família tradicional. “Uma companheira incomparável”, segundo ele. Viveram juntos de 1963 a 1970 – e tiveram Luciana, que hoje mora na Holanda, mãe de três filhos. Procurada, Ilka prefere não falar. Ela era apaixonada por ele e precisou fechar os olhos, mais de uma vez, para a união dar certo. Muitos affairs e mais alguns casamentos vieram. Clark teve também cinco filhos – nenhum com a mesma mulher.
PERDA DE PODER
Seu poder na Globo cresceu tanto que era ele quem recebia as homenagens, títulos e honras. Cada vez aparecia mais. Em algumas ocasiões bebia ostensivamente, em público. Foi durante uma viagem a Nova York, em 1977, quando estava hospedado no hotel Regency com a então namorada, a atriz Sylvia Bandeira (veja entrevista), que recebeu um telefonema de um alto executivo da emissora: “Doutor Roberto (Marinho) não quer que você trabalhe mais na empresa”.
As razões ventiladas foram várias: atritos com outros diretores da emissora, muita exposição na mídia, excesso de boemia, impasse com o ministro Armando Falcão, que estava intervindo demais na emissora por intermédio da censura. Ao ser demitido da Rede Globo, saiu com uma indenização em torno de US$ 2 milhões.
Boni assumiu o seu lugar e Walter Clark nunca escondeu que se sentiu traído por ele. “Boni sempre foi meu subordinado, embora possa ter sido um insubordinado”, chegou a declarar. E disse mais: “Boni só entende de três coisas na vida: televisão, queijos e vinhos. Fora isso, ele não se interessa e nem sabe falar sobre mais nada”.
No mesmo ano da demissão, Clark teve a sua dor maior: perdeu a filha Flávia, do primeiro casamento, asfixiada com gás no banheiro de sua casa de campo. No mesmo dia, nascia Fernando, seu filho de um affair com a modelo Fernanda Bruni: “Era apaixonada por ele, mas a nossa história, complicada, porque Walter era muito bajulado, poderoso e as mulheres pegavam pesado. Criou a TV Globo e aquele veículo acabou com ele, que se perdeu no poder e não se deu conta que era funcionário do doutor Roberto”, diz.
Aliás, Fernanda, ao conhecê-lo, tinha acabado de posar nua. E, segundo diz, uma das coisas que mais a encantou foi que “Walter não era machista”. O filho dos dois é músico, mora em São Paulo e relembra o feeling do pai. “Em 1981 ele já me falava: "Você tem de aprender a usar computador"”, diz Fernando, conhecido como Coy Clark, prestes a lançar seu CD.
Em sua biografia – de extrema coragem – Clark não nega o excesso de bebida e nem o uso de cocaína, porém afirma que nunca comprou um papelote. Usava sempre como convidado.
BELAS MULHERES
Walter Clark também se dedicou ao cinema e montou a Flávia Filmes – uma homenagem à filha, produzindo Eu Te Amo, com direção de Arnaldo Jabor. Investiu e ganhou muito dinheiro, além da emoção de ser aplaudido na première do filme em Nova York.
Nessa época, no auge da boemia, aceleradíssimo, só dormia com uma avalanche de calmantes. Namorou as mais belas mulheres da década: Betty Faria, Sandra Bréa, Sônia Braga e Rejane Medeiros – atriz que acabara de chegar da Itália com status de estrela internacional: “Foi paixão de carnaval. Era um homem muito charmoso, sensível, mas dentro de toda aquela sofisticação tinha uma simplicidade enorme. Tratava muito bem a todos, inclusive os funcionários”.
Quem conviveu com Clark diz que ele não era nada arrogante, mas sim um homem transparente, do bem. Se fazia mal, era apenas a si mesmo. De soberbo, não tinha nada. Era amigo dos amigos, como poucos, e tinha um cão poodle, chamado Menino.
Em 1981, foi contratado pela Rede Bandeirantes como diretor-geral e mudou-se para São Paulo, onde comprou uma casa no Jardim Paulistano. Acabou demitido um ano depois. Não foi bom negócio para ambas as partes. Saiu machucado da emissora e não escondia isso de ninguém.
PERDAS E DANOS
Incentivado pela namorada Dina Sfat, comprou os direitos da montagem do musical A Chorus Line. Investiu milhares de dólares, mas o espetáculo, financeiramente, foi totalmente inviável. “Entrei nele rico, andando de Ferrari e tomando champanhe, e saí quebrado, dirigindo um Voyage emprestado, comendo sanduíche de mortadela”, disse em sua biografia. Ele vendeu o acervo de telas que tanto amava, pois não tinha condições nem de pagar as pensões das ex-mulheres e muito menos os credores. “Vivi tudo de bom e tudo de ruim que alguém pode viver, fui do maior salário do mundo à falência em apenas sete anos.” Ainda em São Paulo, casou e separou-se novamente: nasceu Amanda, hoje com 20 anos, estudante de publicidade. Era louco por ela.
O espectro da Globo sempre o perseguiu, e os trabalhos seguintes, que nunca estiveram à sua altura. Sempre foi um sonhador, planos e projetos nunca deixou de ter. Ao voltar a viver no Rio, nos anos 90, separado mais uma vez, gostava de ouvir Piazzolla, beber vodca, ler revistas de decoração – tinha coleções delas – e assistir à televisão. Nunca a deixou desligada, e criticava o que estava certo e errado. Numa madrugada de março de 1997, sozinho, aos 60 anos, morreu de infarto, decorrente de problemas de hipertensão. Seu corpo foi encontrado pelos empregados.
No funeral, lotado, o caixão foi coberto pela bandeira do Flamengo, do qual chegou a ser vice-presidente. Entre os presentes, Roberto Marinho, que declarou: “Walter Clark era uma figura extraordinária, imprescindível, vai fazer muita falta, tinha espírito moderno e era apaixonado pela profissão, um grande homem de TV, uma grande alma. Devemos a ele o lançamento da TV Globo”.
Ao morrer, deixou ainda alguns imóveis para os filhos – até hoje a partilha não foi resolvida – e sua maior herança: todos são muito educados, nada arrogantes, talentosos e, acima de tudo, trabalhadores. “O que ele mais me ensinou foi o valor do trabalho. Qualquer um que eu fizesse era importante’, diz Eduarda, 36 anos, filha de seu casamento com Maria do Rosário Nascimento e Silva.
No fim da vida, Clark gostava de ir ao Mosteiro de São Bento. Lá, ele sentia paz. Ia com Eleonora, artista plástica, sua última companheira, que prefere não revelar o sobrenome, pois casou-se novamente. Indagada sobre Clark, ela diz: “Nunca vou esquecer aquele olhar meigo. Mas o que mais aprendi com ele foi a não sonhar muito alto”.
Em sua biografia O Campeão de Audiência (hoje esgotada), escrita pelo jornalista Gabriel Priolli, Clark dá a sua opinião sobre poder: “Descobri que não se deve cultivar excessivamente o poder, pendurar-se emocionalmente nele, porque um belo dia acaba, e o dia seguinte é terrível”.
O livro é dedicado aos seus dois melhores amigos, que já haviam falecido: Roniquito Chevallier e José Ulisses Arce. Hoje, em algum lugar, devem estar brindando, juntos: plim, plim!
“Ele se sentiu traído por Boni”
O jornalista Gabriel Priolli, autor de Campeões de Audiência, diz que o desentendimento com Boni foi muito “doloroso” para Walter. Aliás, os dois tinham uma relação intensa
PODER: Boni assumiu o seu lugar e Clark nunca escondeu que se sentiu traído por ele. Está correto?
Gabriel Priolli: Sim. A bronca mais imediata foi por causa disso, do Boni assumir a função dele, ainda que sob outro nome. Mas o problema é muito mais amplo. Walter amava Boni profundamente, era um amigo querido, o cara que ele sempre quis ter ao lado, o cara que ele lutou para contratar. Quando começaram a se desentender, foi muito duro para o Walter. Muito doloroso. E com a saída dele, nas circunstâncias em que ocorreu, piorou ainda mais essa dor. Mas eu sempre senti que a mágoa do Walter com o Boni era como briga de irmãos: cheia de ressentimento, mas com um amor profundo e inegável por baixo.
PODER: É verdade que você pretende escrever outra biografia dele, até os últimos dias?
GP: Eu andei pensando nisso, quando Luciana Clark, filha do Walter, me procurou com a idéia de fazer um documentário sobre o pai. Eu disse que, se fôssemos encarar esse trabalho, eu aproveitaria para reeditar o livro – com ajuda dela para obter a autorização dos herdeiros, que são vários e têm desavenças. Nessa reedição, contaria os anos finais e as circunstâncias da morte, onde o círculo da relação com Boni se fecha (Foi Boni quem pagou as despesas finais de internação e os funerais do Walter). Mas o projeto do documentário não andou ainda e não sei se terei chance, algum dia, de reeditar o livro.
PODER: O que mais aprendeu com Walter Clark durante os nove meses que estiveram juntos?
GP: Aprendi muito sobre estratégia de programação e de comercialização de TV. Eu já sabia alguma coisa, de tantos anos cobrindo e estudando televisão, mas o Walter foi o meu MBA nessas áreas.
“Nunca traí o Walter”
Perguntamos a José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, como foi, afinal, essa história com Walter Clark. De Nova York, Boni diz que os dois nunca brigaram, embora nunca mais tenham tido oportunidade de manter uma conversa “lúcida” sobre o assunto. Fala Boni:
“Walter Clark teve grande importância na criação da TV Globo. Especialmente como um vendedor nato, que conseguiu verbas para realizar o projeto que profissionais como o Borjalo, Daniel Filho, Dias Gomes, Magaldi, Armando Nogueira e Adilson Pontes Malta traziam com suas experiências em outras emissoras. Seu maior mérito foi reunir uma equipe e deixá-la trabalhar livremente. Eu nunca traí o Walter. Eu levei 99% dos profissionais que construíram a Globo e tinha mais compromissos com eles do que com o Walter. Jamais abandonaria esses profissionais para apoiar uma única pessoa, por mais amigos que fôssemos. Entendo a raiva do Walter por eu não ter saído da Globo com ele e me divirto com as críticas infantis feitas a mim.
De televisão eu entendo, como ele mesmo sempre confessou. De vinho e queijos, só gosto. É mais difícil que TV. De resto, pudemos conversar muito pouco, porque sempre foi difícil encontrá-lo em situação que permitisse uma conversa lúcida. Quando saí da Globo, não pedi para ninguém sair comigo e respeitei todos os que ficaram lá, afinal, não sou de corriolas e sim um profissional. Mas quem não reconhecer o trabalho do Walter estará sendo injusto com uma das pessoas mais apaixonadas pela televisão que conheci.
Walter esteve por 11 anos na Globo – de 1966 a 1977. E eu, por 31 anos – de 1967 a 1998. Nós nunca tivemos nenhuma briga e eu o ajudava financeiramente por entender todos os seus problemas”.
EXCLUSIVO
'Na hora, ele ficou pasmo'
Pela primeira vez a atriz Sylvia Bandeira fala de sua relação com Walter Clark. Era ela que estava com ele no exterior quando foi demitido da Globo, por telefone. Aqui, detalhes inéditos do episódio
A DEMISSÃO
Em 1977, quando Walter Clark foi demitido da Rede Globo estava no exterior, acompanhado da atriz Sylvia Bandeira, então sua namorada. Sylvia deixava uma vida de circular pelas festas do hi-society para realizar seu maior sonho: ser atriz. Conseguiu. Hoje, além de prêmios, é reconhecida pela sua discrição. Atualmente, prepara-se para seu maior desafio nos palcos: Marlene Dietrich, Vida e Glória de uma Estrela, um musical em que viverá Dietrich.
Pela primeira vez, com exclusividade para PODER, Sylvia fala de sua relação com Walter Clark e sua versão dos fatos, em muitos pontos divergentes da biografia, até mesmo do local onde ele recebeu o telefonema de demissão.
Você estava no exterior com Walter Clark quando foi demitido por telefone. Qual foi a reação dele?
Walter recebeu o comunicado de demissão da Globo – pressionada pelo desacato a um general – quando estávamos em Portugal, onde ele havia sido convidado para receber o prêmio de personalidade do ano. Na hora, ele ficou pasmo e lembro-me bem que pediu para Otto Lara Resende ajudá-lo a escrever um pedido de desculpas se retratando. Ele ficou muito chateado e acho que a ficha começou a cair quando fomos para Nova York.
Lá, ele começou a beber de forma excessiva, e eu, jovem e inexperiente, não segurei a barra, e resolvi antecipar minha volta para o Brasil. Assim mesmo, quando ele voltou, entendeu minha posição e continuamos a sair, mas a essa altura o relacionamento já estava desgastado.
Na biografia, O Campeão de Audiência, ele diz que sua maior preocupação era comprar uma saia YSL e não se importava com o que ele estava passando. Pediu que você fosse embora. É verdade?
Não, eu que antecipei minha volta por não compactuar com a forma destrutiva como ele se comportava, bebendo em jejum quando chegamos a Nova York. A história da saia Yves Saint Laurent foi um pedido de desculpas por parte dele, ao voltar para o Brasil. Tínhamos sido convidados para uma festa cigana no Regine’s e, como ele sabia que eu estava chateada com aquela bebida excessiva, que me fez voltar logo para o Rio, quis me dar um presente para amainar os ânimos entre nós, que estavam meio alterados. Bem diferente do que ele escreve na biografia dele. Mas eu entendo, afinal, se ele estivesse vivo eu diria tudo isso de uma forma bem contundente, mas não é o caso. Ele não pode se defender e hoje esses detalhes não têm importância. Como diz, toda história tem três lados, ele contou a dele, eu relato a minha e haverá, certamente, uma terceira vista de fora.
Quais eram as maiores características de Walter como pessoa?
Uma inteligência rápida e uma visão afinada e apurada com o mundo da televisão. Lembro-me de ter discussões acaloradas quando ele dizia que a TV Globo era a melhor televisão do mundo e eu na época discordava.
Quanto tempo vocês namoraram?
O namoro começou em Olinda no carnaval de 1977, eu havia sido convidada, com vários atores globais (eu estava no auge por causa do programa 8 ou 800, que tinha uma grande audiência). Walter, por algum motivo, também estava hospedado no mesmo hotel, e amigos comuns nos apresentaram. Rolou um encantamento e começamos a namorar.
O excesso de bebida causou o fim do relacionamento?
Acho que sim, apesar da inteligência brilhante e do charme, ele definitivamente tinha um problema sério com álcool. Tenho certeza que, se tivesse se tratado, não teria morrido tão cedo.
O que fez o relacionamento terminar de vez?
Nossas expectativas de vida eram diferentes. Ele queria uma mulher que ficasse em casa, pintando porcelana e cuidando dele, e o meu movimento era inverso, eu queria me firmar como atriz e ser profissionalmente alguém.