30.08.2017  /  10:55

Maria Ribeiro fala sobre as nuances do filme de Laís Bodanzky e sobre seu retorno ao cinema

Maria Ribeiro: “Quero parar de dar opinião e falar por personagens um pouquinho”, avisa || Crédito: Nicolas Calligaro/Divulgação

Não é todo dia que um filme nacional ganha tamanha projeção mundo afora. “Como Nossos Pais”, de Laís Bodanzky, vem causando esse efeito desde sua estreia no Festival de Berlim em fevereiro. Prestes a estrear nas salas de cinema nacionais nesta quinta-feira, o longa trata de questões cotidianas, focado na mulher e nas diversas facetas que uma mãe de família enfrenta – filhos, marido, maternidade. Quem carrega o peso da personagem Rosa, pivô e personagem central da trama, é a atriz Maria Ribeiro, que concedeu uma entrevista exclusiva ao Glamurama durante a pré-estreia do filme no Cinemark do Shopping Cidade Jardim, em São Paulo.

“Não estou acostumada a andar de salto, deveria ter pensado melhor no que usaria”, explicava Maria enquanto desamarrava a sandália e ficava descalça no lounge do cinema após passar por mais de seis salas com todo o elenco para promover a estreia do filme. “Estou cansada, podemos sentar?”, pedia ela, que com uma Coca-Cola na mão havia acabado de ganhar o Kikito de Melhor Atriz no 45º Festival de Cinema de Gramado na noite anterior – além dela, o filme ganhou também os prêmios de Melhor Montagem (Rodrigo Menecucci), Melhor Atriz Coadjuvante (Clarisse Abujamra), Melhor Ator (Paulo Vilhena), Melhor Direção (Laís Bodanzky) e Melhor Longa Brasileiro. “A gente não esperava tanto. E em Gramado também foi incrível e eu te confesso que seria mentira se dissesse que não acreditava nesse sucesso. Sempre achei que esse filme era uma parada bacana”, conta a entusiasmada Maria.

REPERCUSSÃO

“Cara, eu sempre achei o filme muito bom, o roteiro já era muito bom. Sabia que estava diante de uma coisa especial, um filme que olha para dentro de casa, para a vida das pessoas, um filme humanista, que fala da possibilidade de concertar situações”, conta Maria ao lembrar como tudo começou e de como a aceitação no Festival de Berlim desencadeou uma onda de energia positiva em torno do longa. “Sou muito fã do cinema da Laís, acho que ela faz uma crônica de costumes como ninguém, numa linha assim meio Woody Allen, que é o tipo de cinema que eu gosto de ver, portanto é o tipo de cinema que eu gosto de fazer”, conta a atriz. “Em Berlim realmente foi muito impressionante o sucesso que o filme fez, porque a gente achava que essa questão da mulher sobrecarregada, com muitas funções, era uma coisa mais latina, que na Europa eles fazem faxina também, dominam a situação cotidiana. E não, tem alguma coisa aí que ainda persiste na sociedade patriarcal. Enfim, independentemente disso, o filme é muito amoroso e autoral, e quando você é muito verdadeiro com o que você fala, isso chega às pessoas porque temos sentimentos meio comuns, nos identificamos, todo mundo tem problema com pai e com a mãe, coisa mal resolvida no casamento, outro tem problema com o filho ou está fazendo um trabalho que não gostaria de estar fazendo”, continua.

COTIDIANO

Como o longa aborda o desgaste da rotina, o cansaço de um trabalho e a força que é necessário fazer para manter uma família em pé, Maria procura não se enquadrar nesses padrões fora das telas, e agradece por ter uma rotina que escolheu e que domina. “Não posso reclamar. Faço o que eu gosto, tenho enorme prazer no meu trabalho, escolhi ter dois filhos e a gente tem mulheres que passam muito perrengue no Brasil, porque no Brasil a figura do pai nas classes mais baixas praticamente inexiste, e as pessoas passam 4 horas na condução, então não sou eu que vou reclamar que estou sobrecarregada, sabe?”, diz a atriz, que vê com bons olhos essa mudança de comportamento e torce para que a família e toda sua configuração como conhecemos hoje mude para melhor. “Fico feliz quando estou trabalhando pra caramba e eu falo para os meus filhos que gosto de trabalhar. E uma hora ou outra fica puxado, sim. As mulheres ainda cuidam mais dos filhos, das tarefas, da escola, mas isso é uma coisa que está mudando, faz parte e não dá pra culpar os homens. Isso foi vindo assim e vamos fazer diferente, um ajudando o outro”.

SAIA JUSTA

Em dezembro de 2016, Maria e Bárbara Gancia foram demitidas do programa “Saia Justa”, exibido no GNT, e desde então a atriz enxerga essa mudança de rota como um sopro de frescor, afinal, como ela gosta de lembrar, ser atriz é o que a faz feliz e por um tempo o programa passou a ocupar um espaço maior que devia na vida dela. “O Saia Justa pra mim foi uma coisa muito importante, muito legal, eu amava fazer, tenho excelentes lembranças. Mas eu sou atriz. E eu comecei a perceber que ali estava virando um subpersonagem de mim mesmo, o que é o normal quando você está num lugar de dar opinião, né? Eu achava que tinha uma dramaturgia ali, que eu tinha que ir pra algo mais radical”, explica ela, que está cheia de planos até o fim do ano e em outubro começa a gravar um novo filme com o diretor Matheus Souza, além de lançar um livro chamado “Tudo que eu sempre quis dizer mas só consegui escrevendo”, pela Editora Planeta, também em outubro. “E é isso, estou com várias perspectivas de trabalho como atriz. Quero parar de dar opinião e falar por personagens um pouquinho”, finaliza. Recado dado… (Por Matheus Evangelista)