Por Paulo Sampaio

Fernando Henrique Cardoso entra na ampla sala onde costuma receber a imprensa e convidados na Fundação iFHC, olha para o repórter e o fotógrafo e pergunta: “Não era uma moça que vinha?”. Era. Mas ela precisou apurar outra matéria, em Brasília, e, infelizmente, o presidente terá de se contentar com um repórter do sexo masculino. Ele parece resignado. FHC acabou de abrir e fechar uma palestra cujo tema era Brasil e América Latina: que Liderança É Possível? e agora come uns pãezinhos do coffee break que a secretária guardou para ele.

Localizada no Vale do Anhangabaú, centro de São Paulo, a fundação foi inaugurada em 2004, com robustas contribuições de empresários paulistas. Nasceu como instituto, para abrigar o acervo de documentos privados do presidente e também promover palestras e debates “sobre a democracia e o desenvolvimento”. Em 2010, com o objetivo de “fortalecê-lo como instituição perene”, transformaram o instituto  em fundação. Ali se discutem temas tão diversos quanto Retratos da Primavera Árabe, O Encontro de Joaquim Nabuco com a Política: As Desventuras do Liberalismo e India Grows at Night When Government Sleeps. Em oito anos de existência, a entidade promoveu mais de 200 debates. No dia em que PODER esteve lá, os palestrantes eram o embaixador Celso Lafer, o ex-presidente do Uruguai Tabaré Vázquez e o porta-voz do ex-presidente mexicano Vicente Fox, o sociólogo Rubén Aguilar. Na abertura do evento, assistido por cerca de 60 pessoas, o coordenador de debates da fundação, Sérgio Fausto, apresenta o tema.

Nós, a elite

O encontro é permeado por aquele tom de solenidade que os intelectuais costumam usar para infundir peso a suas opiniões. Os que estão ali afirmam que o Brasil “sem dúvida tem dimensão territorial para exercer liderança na região”; que conta com “preponderância econômica sobre os vizinhos”, com “indiscutível potencial energético”, com “instituições cada vez mais fortes”. “Estamos muito mais adiantados na defesa dos direitos humanos, na democracia”, concluem, orgulhosamente, os brasileiros. Porém, ressalvam, o Brasil parece “receoso em assumir posições”, “insiste em certas posturas desnecessárias” e “deveria falar menos em liderança e passar a exercê-la”. “Nós temos certa tendência à arrogância”, diz FHC. “Quando eu digo nós, quero dizer nós, a elite.”

De repente, Rubén Aguilar efetua uma espécie de corte epistemológico no fluxo do debate, levantando questões que colocam em xeque a própria pertinência do tema. “Por que, afinal, o Brasil está tão preocupado com liderança?” “Que importância tem ser a sétima ou a primeira economia do mundo, se não se dá ao povo condições de viver?” “Como se pode ser líder de seus vizinhos, quando só se enxerga a si mesmo?” Alguns intelectuais presentes sorriem amarelo, outros acham graça de verdade.

Depois do debate, comendo os pãezinhos do coffee break, FHC pondera que Aguilar é mexicano, por isso trata o assunto com ironia. “Ele diz que o povo lá não está interessado em liderança, mas quem tem de querer a liderança não é o povo, é o Estado”, diz. Por outro lado, o ex-presidente acredita que “a verdadeira liderança não precisa ser proclamada, ela é exercida”. E, assim sendo, o Brasil não tem de informar que é líder: “No mundo moderno,  não existe imposição, mas convencimento”.

Intelectual público

Pouco antes da entrevista, a secretária de FHC aponta o lugar onde o chefe se senta e convida o repórter a ocupar uma das outras três cadeiras dispostas em volta de uma mesinha de centro redonda. O presidente posa para as fotos e, em seguida, responde às perguntas. Diz que, hoje, ele é “o que os americanos chamam de ‘intelectual público’”. “Transformo minhas posições e as exponho publicamente. Não fico restrito à universidade.” Certo. E o que ele sentiu, como intelectual público, quando soube que Lula teria uma coluna no jornal americano The New York Times? “O NYT vai distribuir matérias do ex-presidente Lula. Acho bom e normal. Fazem o mesmo com as colunas que escrevo no Brasil.” Tudo a ver. Pode-se inferir, então, que Lula também é um “intelectual público”.

Apesar da identificação, Fernando Henrique Cardoso foi duro com Lula em um artigo publicado nos jornais O Estado de S. Paulo e O Globo com o título “Herança pesada”. Supostamente, o texto era bem intencionado; pretendia dar um desconto ao governo de Dilma, por conta dos erros cometidos por Lula. Mas, ao mesmo tempo, colocava os dois no mesmo equívoco original, o PT. “Comecemos pelo mais óbvio: a crise moral”, escreveu FHC. “Nem bem completado um ano de governo e lá se foram oito ministros, sete dos quais por suspeitas de corrupção. (…) Como o antecessor desempenhou papel eleitoral decisivo, seria difícil recusar seus filiados.” Citou também o mensalão, “outra dor de cabeça”. “De tal desvio de conduta a presidente passou longe e continua se distanciando, mas seu partido não tem jeito.” O tucano mencionou ainda como “herança pesada” o déficit da Previdência, a política energética e o atraso na transposição do rio São Francisco.

Dilma ficou brava.  Ela que, quando FHC completou 80 anos, havia mandado uma mensagem carinhosa para ele, elogiando “o político habilidoso, o ministro-arquiteto de um plano duradouro de saída da hiperinflação e o presidente que contribuiu decisivamente para a consolidação da estabilidade econômica”, soltou uma nota oficial ácida. “Não recebi um país sob intervenção do FMI ou sob ameaça de apagão. Recebi uma economia sólida, com crescimento robusto, inflação sob controle, investimentos consistentes em infraestrutura e reservas cambiais recordes. O passado deve nos servir de contraponto, de lição, de visão crítica, não de ressentimento.” Com sua expressão mais inocente, Fernando Henrique diz a PODER: “Eu escrevo um artigo, ela responde com uma nota oficial. Achei estranho”.

Sem noção

Na opinião de FHC, Dilma parece se sentir “imprensada” por interesses divergentes. Ele a aconselha a “não entrar no olho do furacão”. “Mesmo que esse furacão seja a eleição.” O presidente reconhece que a popularidade dela está em alta, mas acredita que isso é reflexo do que chama de “linguagem unificada do PT”. Para ele, todo mundo no partido diz a mesma coisa: ministros, Petrobras, Banco do Brasil etc. “Você pode ver na TV, só aparece um lado. O lado dela. O povo só vê isso. Não quer dizer que na hora da eleição vá julgá-la do jeito como a julga agora.”

Por sua vez, o PSDB, partido do qual FHC é cofundador, filiado e presidente de honra, parece ter dificuldade para achar um lado – qualquer um. No momento, a impressão é a de que os próprios tucanos não sentem firmeza na decisão de Aécio Neves de disputar a Presidência da República. “O Aécio é mineiro, achava que não era a hora. Agora, ele achou que é hora. Está a toda”, garante Fernando Henrique. O tucano reconhece que o partido frequentemente deixa de “falar claramente”. “Tem de defender o que foi feito. Privatização? Todo mundo tem celular. Todo mundo tem orgulho da Embraer. Você não consegue fazer nada na história se não tiver noção de como ela foi construída.”

Se o tucano reconhece traços de “acanhamento” entre os correligionários do PSDB, particularmente ele garante que sempre foi muito firme em suas opiniões. É verdade que algumas vieram com certo atraso, como a defesa da descriminalização da maconha, feita apenas há dois anos no México. FHC expôs sua posição durante a reunião da Comissão Latino-Americana sobre Drogas e Democracia, da qual faz parte. A repercussão no Brasil foi enorme. Ele discorda que só tenha falado sobre o assunto agora porque é mais fácil para um ex-presidente de 81 anos, sem intenção de disputar cargo político, dar sua opinião sobre temas espinhosos. “Sempre disse o que quis. Quando estava na Presidência, criei a Senad, Secretaria Nacional Antidrogas, com função educativa.” Senad quem? “De fato, não teve muito destaque na época”, ele reconhece.

Ninguém acredita

Convenhamos que agora pega até bem, especialmente entre os jovens que frequentam a fundação, ter um mentor tão prafrentex. FHC responde a eles que nunca fumou maconha, “mas não adianta, ninguém acredita”. Ele acaba concordando que, de fato, expõe com muito mais liberdade suas ideias hoje, do que há 30 anos: “Não tenha dúvida”.

Já que é assim, a reportagem se sente tentada a repercutir algumas histórias clássicas sobre ele. É pão-duro? “Sim, sou.” Mas do tipo pechincheiro? “Não sou uma pessoa de consumo, de gastos.” Esse seu terno é de marca? “Ganhei o tecido, e mandei fazer.” Algum bem de consumo durável que o seduza: canetas, óculos, relógios, automóveis? “Não, não. Carro, eu não sei nem qual a marca. Frequentemente, entro no carro errado, alguém me avisa.”

Sua vaidade é intelectual. O presidente gosta de ir ao cinema, ao teatro, de ler livros. Quando sai, é tratado como astro. Dá autógrafos, inclusive. A constante massagem no ego provavelmente ajuda a neutralizar a eventual decadência física. “Nada resolve essa parte.” De qualquer maneira, é mais fácil para um senhor de 81 anos esquecer uma dorzinha na articulação quando ele tem a agenda cheia. Na véspera da entrevista, FHC almoçou com o escritor peruano Mario Vargas Llosa, depois falou para mil jovens sobre democracia. À noite, jantou com amigos. No dia seguinte, faria uma palestra em Belo Horizonte. Nesses eventos, ele gosta de falar, “não de ler”, para quem o assiste. Mas garante que não sente sono quando um palestrante lê, como o fez, por exemplo, Celso Lafer.

Salto na biografia

O celular dele toca, é a namorada, Patrícia Kundrát, 35 anos, ex-funcionária da fundação. Eles vão se encontrar depois da entrevista. O presidente diz a ela que liga quando entrar no carro. O tucano não sabe precisar há quanto tempo namora Patrícia. “Ah, não sei. Uns dois, três anos.” Gosta de namorar? “Com moderação”, ri. Ele diz que nunca ouviu falar em um grupo de viúvas moradoras de Higienópolis, bairro onde vive em São Paulo, que são apaixonadas por ele. “Só em Higienópolis?”, ri de novo.

Sua fama de mulherengo pareceu se confirmar quando FHC assumiu um filho que, descobriu-se depois, não era dele. É razoável imaginar que o presidente preferiu ser politicamente correto e reconhecer a paternidade do garoto antes mesmo de saber se era o pai. Mas ele explica que não foi bem assim: “Eu não sabia anteriormente e decidi não ‘assumir a paternidade’ – posto que o DNA mostra que não se trata de filho meu – mas, sim, manter laços afetivos e as custas de sua educação. Isso eu faço não porque seja ‘politicamente correto’, mas porque é humana e sentimentalmente o que sinto que devo fazer.”

Um salto e tanto na biografia do intelectual público. Duas vezes presidente da República, ministro das Relações Exteriores, da Fazenda e senador, Fernando Henrique Cardoso revela-se agora um pai adotivo de tendências humanitárias e sentimentais. Além de tudo, tocante.