26.11.2013  /  13:00

A história de sucesso de Flávio Augusto da Silva, fundador da Wise Up

 

Por Andrea Assef  para revista PODER 

O carioca Flávio Augusto da Silva fundou a Wise Up, escola de inglês para adultos que depois se tornou uma rede com 500 unidades, sem falar uma única palavra do idioma. Ele só começou a estudar inglês quando a centésima unidade da Wise Up foi inaugurada. Em compensação, era um vendedor nato e sabia se comunicar como ninguém na hora de conseguir clientes. Essa habilidade o fez conseguir mil alunos em 1995, ano em que a escola foi fundada no centro do Rio de Janeiro.

Silva faz parte da nova geração de bilionários que enriqueceu nas últimas duas décadas. Até os 19 anos, ele morava na periferia da capital fluminense, no bairro Jabour, que fica perto de Bangu, na zona oeste da cidade. Hoje, aos 41, vive com a família em Orlando, na Flórida, e está no meio de um ano sabático. Nos últimos oito meses, ele, a esposa, Luciana, e os três filhos, de 2, 11 e 13 anos, se revezaram entre Barcelona e Londres. Agora, a família decidiu “sossegar um pouco” em Lisboa, onde acaba de se mudar para uma belíssima casa em uma das áreas mais nobres da cidade. Mas a Austrália ainda está no roteiro.

SABÁTICO PERO NO MUCHO

Essa vida de nômade de luxo é resultado da venda do grupo Ometz, que, além da Wise Up, reúne outras escolas de ensino de inglês (Wise Up Teens, Wise Up Offshore, You Move e Go Getter), para a Abril Educação, em fevereiro deste ano, por R$ 900 milhões. Com o negócio, o ex-vendedor de cursos de inglês passou a ser o segundo maior acionista da Abril Educação. Workaholic assumido, Silva subverteu o significado da expressão “sabático”, que é um tempo de descanso, de afastamento do trabalho. Em abril deste ano, por exemplo, em pleno período que ele próprio determinou para se manter distante dos negócios, comprou um clube de futebol profissional nos Estados Unidos, o Orlando City Soccer Club, da cidade de Orlando – ele é dono de 87% das ações, enquanto o restante está com o fundador, o inglês Phil Rawlins, que também continua a presidir o clube. Desde então, Silva não para de se ocupar com a nova empreitada. Mês passado, por cinco votos a dois, os comissários do Condado de Orange, na Flórida, onde fica a cidade de Orlando, aprovaram a construção do estádio que vai possibilitar o ingresso do Orlando City Soccer Club na principal liga profissional do país, a Major League Soccer (MLS), já em 2015. O investimento total no novo estádio, que terá 25 mil lugares, será de US$ 110 milhões. O governo da Flórida e a prefeitura de Orlando vão investir US$ 50 milhões e o restante sairá do bolso de Silva, que ainda vai pagar mais US$ 70 milhões à MLS para que seu time faça parte da liga. A arena do Orlando City Soccer vai ser construída a duas quadras do Amway Center, o ginásio utilizado pelo time de basquete Orlando Magic, que joga pela NBA.

Mas o que levou um bem-sucedido empresário brasileiro, torcedor fanático do Flamengo, a investir em um time de futebol nos Estados Unidos?  “Enxerguei uma oportunidade de negócio”, diz. A compra do Orlando City Soccer Club, na verdade, é a ponta de lança de um projeto bem maior. Em 2014, Silva pretende inaugurar uma rede de escolas de futebol nos Estados Unidos e no Brasil. A meta é ter 800 unidades, no sistema de franquias, em cinco anos. “Morei nos EUA entre 2009 e 2012. Nesse período, acabei acompanhando meu filho, que jogava futebol, nos treinos e nos jogos. Fiquei bastante impressionado com a quantidade de jovens e seus pais envolvidos com o esporte e resolvi analisar esse mercado com mais profundidade”, conta. Silva descobriu, por  exemplo, que 24 milhões de crianças entre 5 e 17 anos de idade praticam futebol regularmente nos EUA. De acordo com ele, em 2012, a MLS teve uma média de público por jogo 50% maior do que a média de público do Campeonato Brasileiro, que, ano passado,  foi de 13 mil pessoas.

Quando não está falando sobre o esporte que se tornou seu mais novo interesse profissional ou passeando com a família pelos arredores de Lisboa, Silva está conectado no Facebook. Mais precisamente na página Geração de Valor, que criou há dois anos para discutir temas ligados ao empreendedorismo e que tem alcance semanal de 12 milhões de pessoas (segundo as métricas do próprio Facebook). “No Brasil, a educação é focada no mercado de trabalho. Acontece que para quem deseja empreender a linguagem é outra. Nessa página,  compartilho minha experiência para colaborar com os jovens que estão iniciando a carreira e desejam chegar mais longe”, explica.

Como tudo o que cai em suas mãos, claro que isso também acabou se tornando ideia para um negócio. O portal GV S/A, como deve ser chamado, vai funcionar baseado em três pilares: qualificação, networking e financiamento. Ou seja, irá oferecer cursos de disciplinas como vendas, marketing e administração ministrados por gente do mercado; encontros presenciais para promover acesso a uma rede de contatos; e disponibilidade de R$ 1,5 milhão ao ano para investimento em projetos diversos. Para ter acesso a esse pacote, os interessados se tornarão assinantes mediante o pagamento de uma taxa anual. A projeção é que, em três anos, o programa, que terá sede em São Paulo e uma equipe inicial de cerca de 150 pessoas, acumule 1 milhão de assinantes. Nesse momento, Silva também está finalizando outro projeto: seu primeiro livro, previsto para ser lançado em março de 2014 pela editora Sextante e que, segundo ele, será uma mistura de temas ligados aos negócios e à autoajuda.

CRAQUE EM NÚMEROS

Ao contrário de boa parte dos empreendedores que contam que negociavam desde pequenos, Silva só foi descobrir seu talento bem mais tarde. Estudou em escola pública boa parte da vida e seu sonho era ser militar,  mais precisamente oficial da Marinha. Cursou dois anos da Escola Naval do Rio de Janeiro, mas não seguiu carreira. Craque em matemática,  decidiu estudar ciência da computação na Universidade Federal Fluminense. Era agosto de 1991 e ele estava com 19 anos. Foi nessa época que aconteceu algo que iria mudar radicalmente sua vida: conheceu Luciana, que se tornaria sua esposa. Como queria ter mais dinheiro para levar a namorada para passear, decidiu procurar um emprego. Olhou nos classificados do jornal e encontrou uma vaga na área comercial de uma escola de inglês. Pegou a gravata do pai emprestada e foi para a entrevista daquele que seria seu emprego pelos próximos quatro anos e em que chegaria ao cargo de diretor. No trajeto de ida e volta de sua casa para o trabalho, Silva passava cerca de quatro horas por dia em um ônibus lotado. Decidiu trancar a faculdade para se dedicar integralmente à carreira.

Um ano depois, aos 20, se casou com Luciana, que tinha 17. “Muita gente achou um absurdo porque éramos muito jovens, mas a gente queria passar o tempo todo junto”, diz ele. Em 1995, sem enxergar mais perspectivas de crescimento na empresa em que trabalhava, fundou a Wise Up. Ele tinha 23 anos e um monte de dívidas, como todo recém-casado. O capital inicial da empresa eram os R$ 20 mil de seu cheque especial a um custo de 12% de juros ao mês.

O pulo do gato da escola de Silva estava na formatação do produto: um curso de inglês para adultos em 18 meses. “Na época, os cursos de inglês duravam sete anos e preparavam o aluno para ser professor. Acontece que os profissionais que já estavam no mercado não tinham esse tempo”, conta. Silva lembra que nos anos 1990 o Brasil vivia o ápice da globalização, da abertura de fronteiras, das privatizações. “Havia uma demanda enorme por pessoas que precisavam falar inglês rapidamente se quisessem se manter no emprego”, revela ele, que recebeu críticas dos concorrentes tradicionais do mercado de ensino de idiomas pelo seu método, digamos, pouco ortodoxo.

A primeira unidade da  Wise Up ficava em um andar de um prédio no centro do Rio de Janeiro. Oito meses depois era inaugurada a segunda, na avenida Paulista, em São Paulo. Em seu segundo ano de existência, a unidade paulistana passou a faturar R$ 500 mil por mês e acabou financiando a expansão da rede, que inaugurou mais 24 unidades próprias nos três anos seguintes. Enquanto Silva trazia mais e mais alunos para a Wise Up, Luciana cuidava do caixa. Toda a parte financeira ficou sob sua responsabilidade até 2003, quando a empresa profissionalizou a gestão. Em 2000, a Wise Up entrou em nova fase de crescimento por meio de franquias até chegar ao total de 500 unidades no Brasil, Argentina, Colômbia, México, Estados Unidos e China.

A partir de 2010, a Wise Up passou a ser assediada pelos bancos de investimento, fundos internacionais e empresas concorrentes. Todos queriam conhecer e, quem sabe, fazer negócio, com a empresa que, entre 2009 e 2012, cresceu 50% ao ano. Silva não se interessou por nenhuma das propostas, mas mandou seu recado para o mercado. Em 2009, o fundador da empresa foi morar com a família em Orlando e criou um modelo de gestão à distância. “Queria passar ao mercado a mensagem  de que na minha empresa havia governança corporativa e que ela sobreviveria sem minha presença.”

Certo dia, em 2012, Silva recebeu a visita de Manoel Amorim, presidente da Abril Educação, em sua casa em Orlando. Depois de um almoço e mais 12 meses de negociação, que contou com a participação do banco BTG Pactual, ele vendeu a Wise Up e se tornou o segundo maior acionista da Abril Educação. E partiu para o ano sabático mais cheio de trabalho e de compromissos profissionais que se tem notícia.