20.08.2015  /  8:38

A dona do tempo: Gloria Pires sem pudores na capa da revista J.P de agosto

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Gloria Pires cheia de charme na edição de agosto da revista Joyce Pascowitch || Créditos: Maurício Nahas

Gloria Pires é a estrela da edição de agosto da revista Joyce Pascowitch. Cheia de charme, em entrevista a atriz relembra grandes papéis da carreira, e fala sobre a família e suas inspirações para viver a poderosa Beatriz, à quem da vida na novela “Babilônia”.

Por Ines Garçoni para a revista Joyce Pascowitch de agosto

Tudo na vida de Gloria Pires é longevo: a carreira, de 47 anos, o casamento, de 28, e a beleza, de 51. Na pele de uma de suas personagens mais polêmicas e complexas, a toda-poderosa Beatriz, esbanja talento e sedução

Deitada na cama de um apartamento em Ipanema, locação deste ensaio, posando para a lente de Maurício Nahas, Gloria Pires ouviu do fotógrafo: “Agora você está me fazendo lembrar aquela personagem que fez naquela novela…”. A frase serviu de gatilho para uma gargalhada sonora, que contagiou a meia dúzia de profissionais ao seu redor: “Qual delas, meu Deus?! São tantas!”. E soltam-se mais risadas. Precisamente, são 26 novelas, sem contar as minisséries e participações especiais, em 47 anos de carreira, todos eles na TV Globo. Aos 51, atriz desde os 5 – a primeira foi A Pequena Órfã, de 1968 –, Gloria jura de pés juntos que Beatriz, de Babilônia, é a mais complexa de sua trajetória. Seja lá qual for a personagem na cabeça do fotógrafo, nenhuma terá sido “tão intensa, com tanto estofo”, diz ela. “Nunca tinha caído nada parecido na minha mão.”

Mulher sedutora, quente, dissimulada e capaz das piores maldades, Beatriz Rangel é um prato cheio para a atriz que já imortalizou vilãs como Maria de Fátima, de Vale Tudo, Raquel, de Mulheres de Areia, e Norma, de Insensato Coração. Mas não foi nada fácil encontrar o tom exato da interpretação. “Eu tive muita dificuldade para saber de onde vinha aquele ego todo, estruturar a autoestima dela, que é um negócio lá em cima. E você sabe onde fui buscar?” Não. “Em Drag Race!”, revela. Gloria ficou viciada no reality show apresentado pela drag queen americana RuPaul, que elege a próxima “drag superstar” dos Estados Unidos: “Quando a gente fala de Drag Race, logo vemos perucas, cílios, saltos… Mas não é disso que estou falando. É da certeza interior do que você é. É o go for it de um homem todo tatuado, careca, com uma roupa de exército, que se transforma na mulher mais sexy do mundo. Com ousadia, com fluidez, elegância. Falei: ‘É isso. Beatriz é uma drag!’”, conta. E solta mais uma gargalhada sonora. “Só não escrevi para RuPaul porque achei tietagem demais. Mas a Beatriz é uma homenagem a ela.”

A união faz a força

Se o público conservador que rejeitou a novela desde o início e derrubou o ibope do horário nobre – a média de 25 pontos na Grande São Paulo é a pior da história – soubesse disso, talvez tivesse outro motivo para boicotar Babilônia. A crise na audiência, cujo estopim veio logo no primeiro capítulo, com o beijo entre Fernanda Montenegro e Nathalia Timberg, se prolongou por causa do excesso de mau-caratismo das personagens, à existência de um núcleo de prostituição, ao prefeito evangélico corrupto e outras tramas de pouca aceitação. “Olha, não posso falar sobre isso porque realmente não sei detalhes, só sei que o final foi antecipado”, desconversa. “Posso dizer que somos muito unidos. Normalmente, qualquer crise, até na casa da gente, deixa as pessoas alteradas e cansadas. Pode ‘dar ruim’, como se diz. E apesar dessas questões, mantivemos o prazer de estar junto. Não é comum esse encontro, sabe? Temos até grupo de WhatsApp!”

Sobre a onda de conservadorismo que chacoalhou a novela, Gloria busca uma explicação para o fenômeno: “Não sei se o telespectador encaretou, não. É um público diferente, com acesso a tudo, ainda que virtualmente. E a novela hoje cumpre um papel interessante: falar da realidade e, ao mesmo tempo, tirar as pessoas dessa mesma realidade. Porque ninguém quer lidar só com a parte difícil da vida, mas, por outro lado, fica mais difícil acreditar em contos de fada”.

Fã de filosofia, sobretudo dos livros do francês Luc Ferry, ela embarca facilmente no raciocínio quando o assunto é o tempo e suas idiossincrasias. “Lembro de Espelho Mágico, de 1977, novela sobre o bastidor do mundo artístico, que mostrava a vida de atores no dia a dia. Tarcísio Meira e Glória Menezes, no olimpo da fama, apareceram escovando os dentes e foi um choque na época! Imagine: famosos na ‘intimidade’, escovando os dentes numa cena!”, conta, para dissertar sobre os telespectadores de ontem e de hoje. “Isso faz a gente repensar o que julgamos como escandaloso, impróprio e até como imoral. O tempo muda completamente os costumes.”

Nas asas da liberdade

Se Beatriz tem atitudes transgressoras na sua vida sexual – não tem pudores em se mostrar interessada por alguém e usa a sedução como arma nos negócios –, Gloria tem Leila Diniz (1945-1972) como grande ídolo, a atriz livre e polêmica que chocou a sociedade ao expor o barrigão de grávida na praia de Ipanema. “Era uma mulher bem à frente do seu tempo, de opiniões marcantes”, elogia. “A coisa que mais prezo na vida é a liberdade, a independência. É poder fazer o que eu quero, na hora que eu quero.” Mas, Gloria, Glorinha, como é chamada pelos amigos, nunca foi rebelde, nem quebrou tabus ou padrões de sua época. “Nunca aconteceu, realmente. Não estava em mim… Por outro lado, talvez algumas coisas que eu tenha vivido fossem transgressoras para as mães das minhas amigas. A minha vida não era tão careta para os outros quando eu era uma adolescente rebelde na tevê ou aparecia nua num filme. Talvez fosse chocante para eles.”

As mudanças de Rio para São Paulo, e vice-versa, que a família fez durante sua infância – o pai, Antônio Carlos Pires, era comediante de rádio e televisão, e a mãe, Elza, produtora – abalaram a vida afetiva de Gloria porque, segundo ela, dificultaram a criação de amizades. “Sempre fui introspectiva, chegada a ficar sozinha, no quarto, ouvindo música. Eu não tinha muitos amigos”, lembra. Mas casou cedo, aos 18, com Fabio Júnior, pai de Cleo Pires, 32, e, em 1987, com Orlando Morais, com quem teve outros três filhos, Antonia, de 23, Ana, de 15, e Bento, de 10. “Veja você… Eu nunca saí para morar sozinha. Quando fui embora da casa dos meus pais, já estava casada e com uma filha”, diz. “Porque não era um lugar do qual eu precisava sair. Eles me davam muita liberdade para fazer e falar o que eu quisesse.”

Nada está fora da ordem

Trabalhar desde pequena deu a Gloria um senso de disciplina fundamental para sua profissão. Além disso, diz ela, carrega muitas características do signo de Virgem (nasceu em 23 de agosto, último dia de Leão, mas se considera bastante virginiana): “Preciso de muita ordem, organização e harmonia. É da minha personalidade. Sempre providenciei isso na minha vida”. Só essas três características juntas são capazes de fazer um ser humano dar conta das diversas atividades das quais a atriz se incumbe diariamente. A rotina inclui filhos, marido, trabalho, tempo para cuidar do corpo (faz ginástica diariamente) e da mente. “Novela é como uma competição de Ironman. Você tem de se preparar muito para aquilo e a energia precisa durar até o fim. Sem saber o que vem pela frente. É uma loteria”, compara.

No dia desta entrevista, estava de folga das gravações, e ainda assim acordou às 6h45, fez manicure e depilação, treinou, voltou para se despedir do marido (que viajou a Paris naquela tarde), almoçou e saiu para posar para este ensaio da J.P. Seu ritmo cotidiano é quase sempre assim. Como se não bastasse, em novembro passado, com a ajuda da amiga e assessora Betty Prado, embarcou em nova empreitada: lançou o portal de e-commerce Bemglô, em que dá conselhos, fala um pouco de si e vende produtos, como o esmalte Gloria Pires, campeão de pedidos na Central de Atendimento da TV Globo. “Faço muita coisa, sim, mas talvez eu não seja competente nem como mãe, nem como profissional (risos). Eu faço o possível. Faz tempo que entendi esse jogo do que quero ser e do que posso ser. E do que esperam que eu seja.”

Deixa a vida me levar

Talvez por isso seu lema seja a música “Time Is on My Side”, dos Rolling Stones: “Esta canção fala muito sobre mim, sobre minha maneira de viver”, conta. “Assim como a de Zeca Pagodinho, ‘Deixa a Vida Me Levar’”. Fica fácil entender por que Gloria não se preocupa, por exemplo, com o fato de ainda não ter atuado em teatro – estrelou apenas um musical infantil e nunca mais subiu no palco, mas, “quem sabe um dia?”, diz. Ou ainda perceber a relação tranquila com a ideia de envelhecer em frente às câmeras. “Sou vaidosa e me cuido, claro, mas o tempo não é meu inimigo. Pelo contrário. Hoje sou muito mais feliz, convivo melhor com meus defeitos, meus problemas, achei soluções para a minha vida. Só o tempo me trouxe isso.”