Notas
23.06.2013 / 15:12

A atriz Vera Gimenez solta o verbo na revista J.P. Leia na íntegra

por Paulo Sampaio para Revista Joyce Pascowitch

Não é justo referir-se a ela apenas como “a mulher de Jece Valadão” ou “a mãe de Luciana Gimenez”. Bem antes de acumular os dois títulos, a atriz Vera Gimenez já era um símbolo sexual consagrado. Loira, boazuda e descontraída, Vera teve a sorte de ficar famosa numa época em que a sobrevida de uma peladona era muito maior. Sua carreira no cinema nacional começou nos anos 1970, mas, uma década depois, quando estrelou com David Cardoso o longa A Freira e a Tortura, ela ainda estava no auge. O filme foi assistido por mais de 1 milhão de pessoas, inclusive em um cinema “especializado” no centrão de Buenos Aires. Se o leitor pensar em Tiazinha, Feiticeira ou Nana Gouvêa, vai reconhecer que Vera, mesmo sem usar silicone, aplique nos cabelos ou bomba para ficar forte, foi mais longeva. No entanto, ela reage mal quando se fala em pornochanchada. “O que eu fazia no cinema era comédia. Não tinha maldade nem pornografia. Eu não ficava nua.” No filme com David Cardoso, aparecia sem roupa de frente e de costas. Ele, que garante ter transado com mais de 800 mulheres e está completando 50 anos de carreira, também era produtor. Cardoso lembra: “Na ocasião, estava entre a Vera e a Maria Isabel de Lizandra para o papel de freira. Mas quando conversamos no Rio, vi que tinha de ser ela”.

O encontro com Vera foi na “biblioteca” do prédio onde mora a filha, Luciana. A atriz mora no Rio, mas quando está em São Paulo se hospeda ali. Ela surge quase meia hora depois do horário marcado, por volta das 13 horas, dentro de uma calça preta com detalhes dourados e uma blusa verde, mesma cor do mocassim de camurça. No pulso, usa um relógio cuja corrente imita ouro rosa. “É um Michael Kors, nada demais. Dei o meu Rolex para a Luciana. Ela nem usa, não gosta de ouro. Prefere diamantes.”
Sofisticada nas referências e, ao mesmo tempo, desbocada, nossa entrevistada diz tudo o que vem à cabeça, sem muita preocupação em parecer pertinente. “Cadê o maquiador?”, pergunta, logo ao entrar no salão. Bruno Miranda se apresenta. “Sou eu.” E Vera: “Ué, você não é biba?”. E Bruno: “Quem disse que não?”. Ela: “Mas que biba bonita, gente!”. Num primeiro momento, Vera se nega a dizer quantos anos tem. “No Brasil, valorizam demais isso. As pessoas ficam diminuindo idade, uma loucura. Só a Susana Vieira aumenta, diz que tem 70.” Ela acaba reconhecendo que, graças ao Google, não há como esconder. E declara: 64 anos.

VOVÓ OU DONA XEPA
A conversa, então, evolui por livre associação. Temas sugeridos: juventude, beleza, nudez, cultura. Vera logo está avaliando “essas meninas todas que estão aí (atrizes e modelos)”: “Não vejo qualidade de estrela em nenhuma. São todas iguais, o cabelo é o mesmo, o comportamento, a bolsa, até o que elas dizem é parecido. Pessoalmente, são tão magras e insignificantes que parecem lombrigas”. O jeito como fala é autêntico, engraçado e prende a atenção da equipe. Aos poucos, ela relaxa, se solta e embala. “Sempre falei mais do que devia. Nunca fiz lobby ou puxei saco para conseguir papel em filme ou na TV. Agora, então… A essa altura da vida, no Brasil, uma atriz vai fazer papel de quê? Da vovó ou da dona Xepa. Não envelheci assim.”

Entre 1971 e 1989, Vera Gimenez fez em torno de 20 filmes com títulos tão inspiradores quanto Por que as Mulheres Devoram os Machos? e As Safadas. Trabalhou em novelas da Globo, como a primeira versão de Anjo Mau, em comédias comerciais no teatro, posou nua para revistas masculinas, casou-se duas vezes e teve dois filhos. Nascida e criada em São Paulo, Vera logo tornou-se uma mulher muito bonita e disputada pelos homens mais poderosos da noite. Aos 19, encantou o empresário João Alberto Abu Morad, dono de casas noturnas bombadas como Moustache e Catedral do Samba, com quem viveu seis anos e teve a filha Luciana. A apresentadora lembra: “Quando criança eu ficava horas observando minha mãe se maquiar, se preparar para gravar e participar de programas de TV, cercada de bibas. Adorava acompanhá-la no Chacrinha, era uma diva, todos a paravam para pedir autógrafo”.

O relacionamento de Vera com Morad era complicado. “Ele sequestrou a Luciana quando ela era bebê e a levou por um mês”, afirma. Em 1972, quando participou do longa A Difícil Vida Fácil, Vera conheceu Jece Valadão, produtor do filme, com quem foi morar no Rio. Os dois ficaram juntos 13 anos. Do relacionamento com Valadão, que era um dublê de cafajeste no cinema e na vida real, ela não pode reclamar de tédio. “Fui muito corneada, inclusive com as empregadas lá de casa. Mas, ao contrário do que se imagina, o Jece era um cavalheiro. Não falava palavrão, sabia se portar à mesa e se vestia com elegância. E olha que era filho de um ferroviário e de uma analfabeta.”

Em uma entrevista à revista Playboy, na edição de janeiro de 2007, dois meses antes de morrer, aos 76 anos, Valadão afirmou que o casamento deles “era muito atritado, neurótico, as duas personalidades se batiam. Foram 13 anos de guerra”. Os dois tiveram um filho, Marco Antônio, hoje com 31 anos, também ator. Disse o “cafajeste”: “Não entrava na minha cabeça que eu tivesse de pagar pensão alimentícia, já que ela estava casada com outro. Mas todo mês ela me ligava, cobrando, e eu pagava”. Na mesma entrevista, ele afirma que perdeu a conta do número de mulheres com quem transou. Falou de surubas homéricas organizadas por gente como os diretores da Globo Daniel Filho e Herval Rossano. “O Jece era boa pessoa; um psicopata mentiroso, mas boa pessoa”, afirma Vera. No fim da vida, o ator tornara-se evangélico e tentara “pregar a palavra para Vera”, mas, disse à Playboy, “ela era umbandista”. No diagnóstico da atriz, “ele ficou broxa e virou evangélico”.

O terceiro marido dela era um psiquiatra de 23 anos, recém-formado, chamado Renê Batista. “A diferença de idade era boba”, considera Vera, que na época tinha 35 anos. O médico morreu aos 33, de câncer no cérebro (de acordo com Jece, Batista morrera de Aids). Seis meses depois, ela descobriu um tumor na mama esquerda. “Fui submetida a uma mastectomia radical, passei um ano sem peito, mas, mesmo fazendo quimioterapia, desfilei na Grande Rio”, lembra. Em 2004, ela teve uma recidiva numa costela, e, em 2010, outra, na sétima vértebra.

 

“DEI MUITO”
A conversa com uma mulher que foi muito desejada, como Vera, fica mais interessante quando ela mostra o que fez com o que sobrou do símbolo sexual. Seria como conversar, por exemplo, com Ellen Rocche daqui a 30 anos. Vera chegou a cursar psicologia para descobrir sua “beleza interior”. “Depois dos 30, quando a mulher fica ansiosa, sem saber se tomou o rumo certo na vida, ela meio que pira na mandioquinha. Eu faço análise até hoje.” Toma também o antidepressivo sertralina. No dia da entrevista, teve alguns lapsos de memória que atribuiu às gotinhas de Rivotril que precisou ingerir na noite anterior. “Durmo tarde, por volta das 2 horas, e acordo umas 10.”

A intranquilidade parece maior quando ela fala do passado. “Não sabia que era bonita. Poderia ter aproveitado mais!”, acha. O problema é que Vera se sentia menosprezada pela intelligentsia artística por viver com Jece Valadão. “Muitas portas se fecharam.” Ela mesma se cobrava para não “parecer burra”. Diz que participou do movimento estudantil, cursou a Aliança Francesa e desde sempre foi leitora voraz de clássicos da literatura como Os Maias e Anna Karenina. Atualmente, lê a biografia romanceada de Elizabeth 1ª.
De alguma maneira, as revelações controversas, a angústia e as sequelas conferem magnetismo à versão madura de Vera Gimenez. Até o fotógrafo para de clicar para ouvi-la. “Eu era muito assediada e dei mesmo. Quem diz que não transou com todo mundo nos anos 70, está mentindo.” Como esteve casada a maior parte do tempo, pergunta-se se toda essa atividade era durante os relacionamentos. Ela diz que sim, com uma espécie de satisfação retroativa. “Quando vi que me traíam, passei a transar com outros também.” Como boa parte dos ex-símbolos sexuais, Vera é muito admirada pelos gays e afirma que alguns de seus melhores amigos são homossexuais. Conta que sofreu com a perda de vários deles, nos anos 1980 e 1990, para a Aids. “Quem não tem amigo veado, está fodido”, decreta.

Como já desceu para a entrevista praticamente maquiada, Vera precisa apenas de um retoque. Pede ao maquiador que não use gloss em seus lábios. “Coisa mais feia é a Vera Fischer com a boca cheia de ‘manteiga’ na televisão. Você já viu?” Vera Gimenez é dura com os outros e também consigo, o que, por vezes, soa como um pedido de socorro. “A pior coisa é ouvir as pessoas dizendo: ‘Você foi tão linda, né?’. Todo mundo foi lindo, gente. Até o mais feinho dos seres humanos tinha mais viço quando era jovem. Então, pra quê dizer isso?” Quem tiver espírito investigativo suficiente para ultrapassar a primeira impressão sobre Vera, vai encontrar nela uma mulher que ama os bichos (tem dois cachorros e três gatos vira-latas), é madrinha da associação Laço Rosa, que fornece perucas a mulheres que estão passando pelo processo de quimioterapia, e quer entrar para o sindicato dos atores para fazer algo pela categoria.

No fim da entrevista, ela está preocupada por achar que falou demais. Conhecendo as reações da filha, e as dela mesma, Vera pede para não publicar “nada sobre o que eu disse sobre a Luciana”. Assiste ao Superpop? “Só quando está interessante. Quando não, mudo o canal. Às vezes ligo para a produção e digo: ‘Isso aí está muito ruim’.” Luciana não reclama. “Apesar do gênio forte, ela sempre foi uma das pessoas mais diretas e verdadeiras que conheço.” Na escola, a apresentadora costumava brigar com quem chamava sua mãe de “gostosa”. “Achava falta de respeito, coisa de filha adolescente. Queria protegê-la.”

Vera é grata à filha. Vivendo de duas pensões, uma do último marido, outra do INSS (“uma miséria”), a atriz diz que Luciana a ajuda muito. Só de plano de saúde são R$ 2.500 por mês, “uma estupidez”. “Eles dobraram o valor quando fiz 60 anos”, queixa-se. Com uma espécie de humor involuntário, diz que sua saúde é ótima, mas que possui uma “tendência a ter problemas que enchem o saco mas não matam”, como inflamações no menisco ou alteração nas taxas da tireoide. Por causa do câncer, ela pode adquirir um carro com desconto de cerca de 20% em impostos. “Você acredita que tem gente com inveja de mim por isso?” Parece ainda mais absurdo, quando se trata de alguém que foi invejada a vida toda pela beleza.